Em “Habemus Papam”, Nanni Moretti retrata crise existencial de papa recém-eleito

 

 

O ator e diretor italiano Nanni Moretti faz comédia inteligente ironizando religião e psicanálise em seu novo filme, “Habemus Papam”, que concorreu no Festival de Cannes 2011 e estreia nesta sexta-feira (16).

O papa em questão é interpretado pelo magnífico ator francês Michel Piccoli, que dá carne, osso e uma psicologia muito especial ao personagem do cardeal Melville. Um homem que, eleito papa, entra em crise e não toma coragem de assumir o cargo.

Este instigante ponto de partida desenvolve-se em uma série de direções criativas, no roteiro assinado por Moretti, Francesco Piccolo e Federica Pontremoli. Começa pelo inusitado da situação, em que todos sabem que há um papa eleito, mas não seu nome, pois na hora em que ele deveria saudar o povo na sacada do Vaticano, entra em pânico e recua.

Como ele já aceitou o cargo, o pesado protocolo da Igreja Católica cai num impasse. O que fazer? O papa assume ou não o cargo? A imprensa de todo o mundo pressiona para saber o nome do eleito.

Entra em funcionamento o prodigioso jogo de cintura do porta-voz do Vaticano (o ator polonês Jerzy Stuhr, habitué de vários filmes de Krzysztof Kieslowski, como “A Igualdade é Branca”).

Primeiro, o porta-voz chama o médico. Depois, o psicanalista (Nanni Moretti). A entrada deste estranho no ninho do Vaticano é o principal deflagrador de situações cômicas, já que o terapeuta é declaradamente ateu no meio de um imenso grupo de cardeais de vários países, votantes da eleição papal.

Enquanto o papa entra em crise existencial, pois não se julga apto para o cargo, o psicanalista e os cardeais, todos impedidos de deixar o Vaticano por causa do segredo a ser mantido a todo custo, dedicam-se a jogos diversos.

Começa pelo carteado, em que os cardeais mostram que não gostam de perder, como quaisquer pecadores. E termina por um torneio de vôlei, em que o terapeuta divide os times por blocos continentais, em que fica claro o peso da geopolítica, ou seja, a lei do mais forte prejudicando a América Latina, a África e a Oceania, que têm menos cardeais.

Enquanto isso, o porta-voz tenta outras estratégias, levando o papa para fora dali para ver outra terapeuta (Margherita Buy, de “O Quarto do Filho”). Desta vez, o papa parece ter ficado mais tocado pela conversa, o que o leva a fugir, para desespero do porta-voz e dos policiais que o acompanhavam.

Nesta fuga, o papa frequenta lugares normalmente inacessíveis ao Sumo Pontífice – uma lanchonete simples, uma loja de departamentos, um hotel modesto, um teatro em que uma trupe interpreta “A Gaivota”, de Anton Tchecov.

O religioso demonstra interesse por ser ator – o que aproxima este personagem do João Paulo 2º, que na juventude foi ator. Ainda assim, Nanni Moretti negou em Cannes que tivesse se inspirado no papa polonês, que morreu em 2005.

Assumidamente ateu desde a juventude, Nanni Moretti não expõe somente os bastidores e contradições da religião – os percalços da psicanálise também são objeto de sua ácida ironia, particularmente neste filme, um de seus melhores.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

Por UOL

 

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